terça-feira, 15 de dezembro de 2015

ARRE, QUE TANTO É MUITO POUCO!

ARRE, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.
Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!

Álvaro de Campos, 1890

Poesias

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“ARRE, que tanto é muito pouco!” é um poema escrito por Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa.
Visto que Pessoa elaborou uma biografia para cada uma das suas personagens literárias, onde muitos vêem apenas um Álvaro de Campos, existem na realidade uma variedade deles, isto porque esta personagem evolui como poeta, mais ou menos ao lado do próprio Fernando Pessoa.
Vê-se então que Álvaro de Campos passa de um sensacionalismo ou de um modernismo instantâneo, de exaltação acerca da indústria e das máquinas para um Campos derrotado na vida, rendido ao tédio.
Este poema é curioso, pois nos dois últimos versos Campos revolta-se. Fala de si mesmo e não do mundo exterior. O seu tom, embora exaltado, é um tom de desilusão e apenas se serve da voz alta para reforçar a dor que sente no seu interior.
No entanto, o mais tocante para mim é a maneira como o poema se transforma num relato poético do interior daquele que acusa. Ou seja, se Portugal está mal, pior ainda está o poeta.
"Amor, glória, dinheiro são prisões" é uma frase conhecida de Campos.